A investigação revela novos desdobramentos sobre a atuação de uma rede criminosa integrada por agentes de segurança pública, conforme apontam registros de conversas obtidos em aparelhos celulares apreendidos. O material foi periciado no âmbito da Operação Infiltrados, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco).
Os diálogos indicam que traficantes comemoravam abertamente a movimentação de policiais civis suspeitos de integrar o esquema de desvio de entorpecentes. Segundo o inquérito policial, as tratativas revelam uma articulação direta entre criminosos e autoridades lotadas em unidades de combate às drogas.
Em um dos trechos destacados pelos investigadores, o traficante conhecido como Scooby celebra a transferência do investigador Roberto Palmeira da Silva para a Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar). O suspeito enviou uma imagem da postagem sobre a mudança a um comparsa e afirmou que a alteração favorecia os interesses do grupo.
De acordo com o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), a unidade policial era o principal ponto de coordenação das atividades ilícitas. A documentação aponta que o investigador mencionado figurava entre os responsáveis por repassar aos criminosos os carregamentos de drogas apreendidos em operações oficiais.
Esquema de cooptação e revenda
Outras mensagens interceptadas detalham a cooptação de colaboradores externos para atuar na distribuição dos entorpecentes subtraídos. Áudios atribuídos a Scooby relatam que um homem identificado como Lucas da Silva dos Santos, conhecido como LK, foi recrutado após ser preso em flagrante.
O relatório aponta que LK passou a atuar na revenda das substâncias ilícitas fornecidas diretamente pelos policiais corrompidos. Segundo o Gaeco, o esquema consistia na omissão de parte dos entorpecentes nos registros formais de ocorrência ou na subtração direta dos depósitos da delegacia.
O material probatório também registra frustrações entre os membros da organização criminosa quando ocorria o cumprimento rigoroso dos protocolos policiais. Em uma conversa interceptada, outro suspeito lamenta a divulgação pública de uma apreensão de 30 quilos de pasta base de cocaína realizada pela Denar.
O interlocutor afirma ao irmão que a carga estava destinada ao grupo, mas a publicidade dada ao flagrante impediu a concretização do desvio. A investigação aponta que, nestes casos, os agentes buscavam rapidamente alternativas para repassar materiais de outras apreensões aos criminosos.
Atuação estruturada e liderança
As apurações do Gaeco tiveram início em outubro de 2025, a partir de indícios colhidos nas operações Traquetos e Blindspot. O conjunto probatório indica que o esquema funcionou, pelo menos, entre 2021 e 2026, movimentando grandes quantidades de drogas por meio de facilidades institucionais.
O comando da estrutura era atribuído ao delegado Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa, que chefiava a Denar durante o período central das investigações. Segundo o Ministério Público, a atuação do delegado garantia a chancela institucional necessária para a execução das subtrações de entorpecentes.
Desdobramentos judiciais
A Operação Infiltrados foi deflagrada com o cumprimento de dezenas de mandados de prisão e de busca e apreensão em municípios como Campo Grande, Dourados e Terenos. As ordens judiciais atingiram diretamente residências e locais de lotação dos agentes investigados.
Os suspeitos detidos respondem agora perante a Justiça por organização criminosa, tráfico de drogas e corrupção ativa e passiva. O inquérito permanece aberto para identificar eventuais ramificações do esquema em outras unidades policiais do estado.
Por Rafael Dumas, direto da redação



