A investigação revela novos desdobramentos sobre a atuação de uma organização criminosa formada por agentes de segurança pública em Mato Grosso do Sul. Documentos do inquérito policial apontam que traficantes celebravam a movimentação interna de policiais investigados por desviar cocaína apreendida em operações oficiais.
O esquema ilícito era coordenado a partir da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar) e foi alvo da Operação Infiltrados, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco).
Registros obtidos em aparelhos celulares apreendidos detalham a satisfação de criminosos com a lotação de determinados agentes em unidades estratégicas. Em uma das conversas analisadas pelos investigadores, o traficante Allan Roberto Martinez Abdala, conhecido como Scooby, comemora a transferência do investigador Roberto Palmeira da Silva para a Denar.
O material probatório inclui capturas de tela enviadas entre os suspeitos para validar a mudança de lotação.
Articulação com o tráfico
Conforme o inquérito, o diálogo demonstra claramente que o criminoso avaliava a transferência como um cenário favorável aos interesses da quadrilha. O documento policial destaca que o investigador era um dos responsáveis por fornecer aos traficantes as substâncias entorpecentes subtraídas das apreensões oficiais.
Apesar de utilizar termos pejorativos para se referir ao agente nas mensagens, o investigado celebrou o fato com a expressão só alegria.
Áudios interceptados durante a apuração indicam ainda o recrutamento de outro operador para o esquema de revenda de drogas. O traficante Scooby menciona em conversas que Lucas da Silva dos Santos, conhecido como LK, foi cooptado pelos policiais enquanto estava sob custódia policial após uma prisão em flagrante.
Segundo o Ministério Público, os agentes interceptavam carregamentos, omitiam parte dos entorpecentes nos registros formais e repassavam o material para que LK reinserisse o produto no mercado ilícito.
Modus operandi da organização
O inquérito detalha que o grupo criminoso atuava por meio de duas frentes principais para desviar os entorpecentes sob custódia do Estado. Os policiais subtraíam a cocaína diretamente do depósito da delegacia ou registravam volumes inferiores aos efetivamente apreendidos nas ocorrências. O material desviado era entregue a intermediários encarregados da distribuição e armazenamento em pontos estratégicos de Campo Grande.
Em outro diálogo interceptado pelo Gaeco, o traficante Edmilson Santos Pereira lamenta a divulgação pública de uma apreensão de 30 quilos de pasta base de cocaína realizada pela própria Denar. Na mensagem enviada a um familiar, o suspeito afirma que o carregamento seria destinado ao grupo criminoso e reclama que a publicidade policial frustrou a negociação.
O interlocutor acrescenta que os policiais corrompidos logo arrumariam outra remessa com outro fornecedor para repassar aos criminosos.
Comando e desdobramentos
As investigações do Gaeco tiveram início em outubro de 2025, a partir de indícios recolhidos nas operações Traquetos e Blindspot. Os relatórios apontam que o esquema funcionou pelo menos entre 2021 e 2026 sob a chefia institucional do delegado Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa.
Conforme o Ministério Público, o delegado ocupava a posição de comando e garantia a sustentação operacional da quadrilha, sendo um dos principais beneficiários do esquema de corrupção.
A Operação Infiltrados mobilizou equipes para cumprir 24 mandados de prisão preventiva, duas ordens de prisão temporária e 38 mandados de busca e apreensão. As diligências ocorreram simultaneamente em Campo Grande, Dourados e Terenos, onde o delegado exercia funções antes de ser alvo das ordens judiciais.
Os suspeitos respondem por organização criminosa, tráfico de drogas e corrupção ativa e passiva, enquanto o Ministério Público prossegue com a análise do material apreendido para identificar outros envolvidos.
Por Rafael Dumas, direto da redação



