Mano Xis integrou o movimento que impulsionou o hip-hop em Campo Grande a partir da década de 1990, período em que o gênero enfrentava barreiras para ocupar espaços institucionais e eventos artísticos tradicionais. O artista encontrou nas rimas uma ferramenta legítima para relatar as vivências das comunidades periféricas e denunciar desigualdades sociais.
Sua atuação ganhou projeção nacional e regional principalmente por meio do Falange da Rima, coletivo fundado na capital sul-mato-grossense em 1998 e reconhecido como um dos pilares do rap local.
A consolidação do rap sul-mato-grossense
Com letras de forte teor político e social, o grupo levou aos palcos discussões fundamentais sobre pobreza, violência urbana, preconceito racial e exclusão social. O trabalho do coletivo resultou em produções marcantes para a discografia estadual, a começar pelo álbum Mariposa Assassina, lançado em 11 de setembro de 2001.
Anos mais tarde, o grupo ampliou o repertório com o disco Esquadrão Mariposa, lançado em 2013, e com o single Oração da Serenidade, de 2019.
O catálogo do Falange da Rima acumulou composições que definiram a identidade do rap na região, a exemplo de Circo dos Horrores, Abrakadabra, Capital sem Favela, O Pano do Rei e Passos Indecisos. Essas faixas retrataram a realidade cotidiana e deram visibilidade a narrativas que raramente integravam a produção cultural hegemônica da época.
A relevância artística do grupo foi chancelada em 2022, quando os integrantes receberam homenagens oficiais durante o Festival Campão Cultural.
O reconhecimento institucional também se refletiu em participações de destaque em projetos como o Som da Concha, realizado na Concha Acústica Helena Meirelles, no Parque das Nações Indígenas. Em dezembro de 2024, Mano Xis integrou a escalação de um show concebido para aproximar o rap de referências da música regional, como Almir Sater, Délio e Delinha e Bêbados Habilidosos.
A inserção em palcos oficiais representou o coroamento de décadas de luta por espaço e valorização das expressões periféricas.
Desafios de saúde e perdas na cena
Nos últimos anos, a trajetória do músico foi atravessada por complicações de saúde que exigiram suporte e mobilização de admiradores e familiares. Em novembro de 2024, o rapper sofreu um infarto e, nos primeiros meses de 2025, recebeu o diagnóstico de câncer de próstata maligno.
Em agosto do mesmo ano, a situação do artista ganhou repercussão pública quando familiares compartilharam as dificuldades enfrentadas na busca por atendimento médico especializado e continuidade dos tratamentos oncológicos.
A morte de Mano Xis ocorre pouco mais de um ano após o falecimento de outro nome central do Falange da Rima, o rapper André Luiz Monteiro Aguirres, conhecido como Flynt, que morreu em 8 de setembro de 2025, aos 53 anos.
As partidas sucessivas de figuras que lideraram a construção do hip-hop campo-grandense representam um momento de luto profundo para a comunidade artística e para os movimentos sociais do Estado.
Em nota oficial emitida neste domingo, a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul reiterou que o legado do rapper permanece vivo na memória cultural da capital e na identidade dos artistas que continuam o trabalho nas ruas.
Familiares, amigos e coletivos de rap preparam homenagens póstumas para celebrar a contribuição de Mano Xis à história da música e da cidadania em Mato Grosso do Sul.
Por Leon Vaz, direto da redação

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