O confronto trouxe reviravoltas emocionantes para os bastidores da saúde sul-mato-grossense, com a intervenção direta na administração da Santa Casa de Campo Grande. A nomeação de Luiz Alberto Kanamura ocorreu após uma decisão enérgica da Justiça, assinada pelo juiz Eduardo Lacerda Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos.
A medida afastou imediatamente 19 membros da diretoria corporativa e do conselho de administração da instituição. Kanamura assumiu o comando do maior hospital do Estado inicialmente pelo período de 180 dias, prazo que pode ser prorrogado caso haja necessidade operacional.
Desde a posse, o novo gestor iniciou uma maratona de reuniões com entes públicos para desenhar as primeiras estratégias de recuperação. Segundo apuração do jornal Correio do Estado, um dos principais acordos pactuados exige que a nova gestão corte em 20% a folha de pagamento da instituição.
A meta de redução de despesas é direcionada exclusivamente aos funcionários contratados sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Os colaboradores vinculados como pessoas jurídicas (PJ) ficam de fora dessa etapa inicial de enxugamento de custos operacionais.
Participaram do alinhamento estratégico representantes do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), da Secretaria de Estado de Saúde (SES) e da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau). O objetivo primordial do planejamento é estancar o déficit e blindar o atendimento aos pacientes contra os reflexos da crise financeira.
Ajuste operacional e metas financeiras
Em entrevista concedida ao Correio do Estado, Kanamura detalhou os rumos do planejamento orçamentário traçado para os primeiros seis meses de intervenção. O gestor destacou que o foco absoluto da nova equipe é evitar qualquer tipo de dano assistencial à população que depende do hospital.
Conforme apurado pela reportagem, o enxugamento de quadros já começou a ser implementado com o afastamento de alguns nomes da estrutura anterior. A manobra busca readequar a operação diária e zerar o déficit de fluxo de caixa em um horizonte estimado de tempo.
A Justiça impocou rigorosos condicionantes para manter Kanamura no cargo, exigindo a apresentação mensal de prestações de contas detalhadas. O magistrado determinou que a administração informe regularmente sobre a aplicação de recursos, despesas, contratos vigentes e medidas de regularização.
O pacote de exigências judiciais inclui 17 obrigações específicas que devem ser cumpridas à risca durante o período de intervenção. Entre as proibições mais relevantes está a restrição severa à contratação de novos empréstimos bancários pela diretoria da entidade.
Endividamento histórico e auditoria
A proibição de novos empréstimos encontra forte respaldo nos balanços financeiros recentes da Santa Casa. De acordo com o balanço de 2025 divulgado em julho deste ano, os empréstimos acumulados ultrapassavam a marca de R$ 261,7 milhões, com taxas de juros elevadas de até 1,85% ao mês.
Esse cenário de juros pesados impulsionou o endividamento crônico e os rombos seguidos nas contas do hospital. Em 2024, o déficit registrado havia sido da ordem de R$ 98,3 milhões, elevando o passivo acumulado para um patamar superior a R$ 544 milhões.
Somente as dívidas referentes a impostos atrasados, todos devidamente parcelados, somam impressionantes R$ 189,8 millones e 817 mil reais. Kanamura avalizou a restrição imposta pelo Judiciário, ressaltando que qualquer decisão financeira de grande porte exigirá o aval conjunto dos poderes públicos e da fiscalização judicial.
Operação policial e desvios
A crise institucional atingiu o ápice no dia 11 de setembro, quando o Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e o Gaeco deflagraram a Operação Antidotum. A ação policial cumpriu mandados de prisão preventiva e buscas em Campo Grande, Dourados e na capital de Goiás.
As investigações apontaram desvios milionários em dois contratos voltados para a prestação de serviços de digitalização de prontuários médicos. Os prejuízos estimados aos cofres da instituição chegam a cerca de R$ 4,9 milhões, justamente no período em que o hospital alegava incapacidade operacional por falta de verbas.
Entre os alvos presos preventivamente na operação policial estavam o então presidente Alir Terra, o diretor administrativo Alessandro Dias Junqueira e o diretor financeiro Rinaldo Halme Romano. O desdobramento culminou no afastamento judicial em massa da cúpula diretiva e do conselho.
Como desdobramento concreto da nova fase administrativa, Kanamura anunciou que uma auditoria externa completa será realizada na instituição. Além disso, a Controladoria-Geral da União (CGU) foi formalmente convidada para conduzir uma verificação independente na aplicação de todos os recursos do hospital.
Por Marcus Teixeira, direto da redação



