A investigação revela novos desdobramentos sobre a atuação de agentes públicos no tráfico de drogas, apontando que criminosos comemoravam abertamente a movimentação de policiais civis suspeitos de integrar o esquema. O material consta em inquérito conduzido pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado, que deflagrou a Operação Infiltrados na última quinta-feira.
Conforme os registros obtidos em celulares apreendidos, o traficante Allan Roberto Martinez Abdala, conhecido como Scooby, celebrou a transferência do investigador Roberto Palmeira da Silva para a Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico. Segundo o Ministério Público, o diálogo demonstra que a mudança era vista pelo grupo criminoso como um fator altamente favorável aos seus interesses ilícitos.
Em uma das conversas interceptadas pelos investigadores, o suspeito encaminha a imagem de uma postagem feita pelo policial sobre a nova lotação e afirma que a situação havia melhorado. O inquérito aponta que o trecho confirma a colaboração prévia do agente com a quadrilha, facilitando o acesso a entorpecentes apreendidos.
Esquema de desvio e cooptação
As apurações indicam que o esquema era coordenado a partir da própria unidade especializada e contava com a participação de diversos policiais civis pelo menos entre os anos de 2021 e 2026. A rede criminosa atuava tanto pela omissão no registro oficial de apreensões quanto pela subtração direta de drogas armazenadas no depósito da delegacia.
Áudios extraídos dos dispositivos móveis mostram ainda que os policiais corrompidos recrutaram Lucas da Silva dos Santos, conhecido como LK, após uma prisão em flagrante. O indivíduo passou a atuar como o principal elo entre a corporação e o tráfico, encarregado de reintroduzir no mercado ilegal os entorpecentes desviados pelos agentes.
De acordo com o Ministério Público, o esquema garantia o fornecimento constante de mercadoria ilícita para revendedores da região. Em outro trecho transcrito nas investigações, um traficante identificado como Edmilson Santos Pereira lamenta a divulgação pública de uma apreensão de 30 quilos de pasta base realizada pela unidade, o que impediu a comercialização planejada da carga com o grupo.
Liderança e operação
O comando da estrutura criminosa era atribuído ao delegado Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa, que chefiou a unidade especializada durante anos e garantia a chancela institucional para as atividades ilícitas. A investigação aponta que, mesmo após transferências de alguns integrantes para outras delegacias, o grupo manteve o modus operandi de desvio e comercialização de drogas.
A Operação Infiltrados resultou no cumprimento de dezenas de mandados de prisão e de busca e apreensão em cidades como Campo Grande, Dourados e Terenos. Entre os alvos das ordens judiciais esteve a residência do delegado apontado como chefe do esquema, que acabou afastado de suas funções públicas.
Os suspeitos agora respondem perante a Justiça pelos crimes de organização criminosa, tráfico de drogas e corrupção. As autoridades continuam a análise do material apreendido para identificar outros possíveis beneficiários e desarticular completamente a rede de apoio aos entorpecentes desviados.
Por Rafael Dumas, direto da redação



