A Santa Casa de Campo Grande passa a restringir os atendimentos a partir de hoje, priorizando exclusivamente casos de emergência e urgência médica.

A medida foi acordada com o Ministério Público de Mato Grosso do Sul, a Justiça e outros órgãos públicos após o hospital recusar a última proposta de renovação de contrato por desacordos financeiros, segundo dados do Correio do Estado.

Na quarta-feira, uma audiência entre representantes da instituição, da Justiça, do Ministério Público, da Secretaria Municipal de Saúde e da Secretaria de Estado de Saúde terminou sem um acordo definitivo. A proposta apresentada pelas secretarias previa um incremento de cerca de R$ 4,5 milhões nos repasses mensais sob vigência de três anos.

A direção da unidade hospitalar avaliou o valor como insuficiente para cobrir o deficit operacional.

Essa resistência ocorre porque o deficit mensal do hospital varia entre R$ 15 milhões e R$ 19,7 milhões, valor que não seria sanado pelo aumento oferecido pelo Município e pelo Estado. Conforme declaração do gestor interino da Santa Casa, Luiz Alberto Kanamura, a parte técnica evoluiu nas negociações, mas as partes não chegaram a uma adequação da parte financeira.

Atualmente, a continuidade do atendimento pelo Sistema Único de Saúde é garantida por meio de um acordo temporário que vence no dia 20. O valor repassado permanece o mesmo da contratualização anterior, fixado em R$ 32,8 milhões mensais, além de quase R$ 2,5 milhões de parcerias privadas.

Diante do impasse, os serviços ficam restritos a emergências e os pacientes serão atendidos mediante apresentação de autorização emitida pelo Complexo Regulador Estadual. A medida visa preservar os recursos financeiros disponíveis para os atendimentos de maior gravidade.

Prioridades assistenciais e metas de atendimento

Para adequar as contas ao orçamento atual, sete áreas de alta complexidade serão priorizadas pela gestão. Entre elas estão o atendimento a politraumatizados graves, neurocirurgia clínica e cirúrgica, ortopedia, cardiologia clínica e cirúrgica, cirurgia vascular e o tratamento de grandes queimados. Pacientes sem perfil de emergência serão transferidos ou direcionados a outras unidades da rede pública.

Outro ponto que pesou na recusa da proposta foi o aumento significativo na meta de procedimentos exigidos no novo contrato. Somente para ressonância magnética, o crescimento seria de 3.000%, saltando de 20 para 620 exames mensais. Também constavam elevações expressivas em tomografia computadorizada, consultas ortopédicas e radiologia intervencionista.

No total, as consultas especializadas passariam de 3.308 para 7.335 mensais, enquanto os exames ambulatoriais subiriam de 1.309 para 5.889 por mês. A direção argumentou que a aceitação integral desses termos provocaria a asfixia financeira imediata da instituição e risco de colapso na saúde estadual.

Crise salarial e impacto no corpo clínico

A instituição também enfrenta atrasos salariais para médicos que atuam no regime de Pessoa Jurídica, com destaque para os anestesistas. A inadimplência ultrapassa quatro meses e soma R$ 2,3 milhões, gerando pedidos de desligamento de equipes e escassez de órteses, próteses e materiais especiais.

A Justiça determinou que as empresas prestadoras de serviço de anestesia permaneçam por mais 45 dias no hospital, com término previsto para o final de novembro. A decisão judicial fixou um quantitativo mínimo de profissionais durante os turnos diurnos, noturnos e fins de semana para assegurar a segurança operacional.

Como parte do plano de contenção de gastos, a gestão provisória prevê a redução de 20% na folha de pagamento de funcionários sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho. A tendência é que a restrição de atendimento permaneça por tempo indeterminado até que haja um consenso financeiro entre o hospital e as autoridades de saúde.

Por Maya Santos, direto da redação